Entrei no hospital. Disse: "Fui atropelado." Internei-me em busca da liberdade. Quão estropiada se torna a missão de quem se nega à condução... O trânsito incontornável da capital dói como um embate frontal. Verificar a chapa... a dura periferia de tudo, o olhar apavorado que as mãos bem abertas não conseguem suster... O protocolo seguido pelas enfermeiras torna-se ele mesmo mecânico. Tudo é labirinto, beco, paredes. A paciência do ânimo fica-se por mais esta esquina. O corropio é um pavio que corrói (não só etimológicamente). Por onde me esgueirar com esta dôr? Para onde, se todos são lá no meio uns dos outros? Qual o ritual que abstraia da rotina, e que não seja vã à luz do espaço sem iluminação?
Sociedade, dizem eles. Acredito. Sinto-me descabido. Um estereotipo qualquer aprisiona-me a alma desprendida do corpo, do ali da vida. Entre o mim e o nós há um meio passo, sempre um meio passo. Enfim... vou atravessando passadeiras, mecânicamente, enquanto respiro a poluição que não parece poder dissipar-se. Há uma grande ferida na atmosfera. Socorro-me do calôr que ela escorre, enquanto ponho de lado a esperança. O doutor passa-me umas receitas impessoais. Cai a noite como os panos intensamente mortos de uma peça. Espero, artificialmente.